Dexter e os discursos não ditos

nov 9, 2009   //   by paraphernalia   //   Cultura em geral  //  1 Comment

Dexter

“Será que eu sou bom, sou mau, ou sou apenas uma pessoa ruim fazendo coisas boas?” – Dexter

Quem acompanha a série Dexter já deve ter percebido que grande parte das ironias encontradas no roteiro vem de discursos não ditos do personagem. Pois bem, isso me fez refletir sobre essa medíocre vida real que vivemos e da qual somos covardes boa parte do tempo.

Explico. Assim como na série, somos colocados frente a situações que nos desagradam ou que no mínimo não estão de acordo com a nossa conduta, seja ela qual for. E o que fazemos na maioria das vezes? Nos calamos. Não no sentido real (muitas vezes recorrente), mas metafórico, quando aceitamos algo que não concordamos.

Lendo um dos textos de Contardo Calligaris, e com os últimos episódios de Dexter frescos na cabeça, essa inquietação sobre os discursos não ditos aumentou.

“Mas resta uma dúvida (que compartilho com Nietzsche, “Genealogia da Moral”, Companhia das Letras): nossa moral aparentemente generosa e a esperança de que Deus, um dia, recompense os ofendidos e puna os ofensores talvez sejam uma grande invenção coletiva, criada, justamente, para que as vítimas sejam confortadas e possam perdoar não tanto aos agressores, mas a elas mesmas, ou seja, perdoar a “covardia” da qual elas acabam se acusando, num eterno lamento por elas não terem revidado na hora.”

Revidar na hora. Logo depois do acontecido nos perguntamos:

Por que eu não falei isso? Ou aquilo? Por que eu não agi assim? Ou daquela outra forma? E assim construímos milhões de discursos perfeitos (para nós mesmos) que nunca serão ditos ou executados. Veja bem, criamos! Criamos histórias, fantasiamos numa ficção onde tudo faz sentido. Criamos algo ou alguém  maior que será o nosso vingador, já que nós não conseguimos agir por nós mesmos. Todos criamos histórias e somos roteiristas de discursos não ditos.

“Pense bem: inúmeras vezes, dias e mesmo meses a fio, depois de ter sido insultado, machucado, assaltado, empurrado real ou simbolicamente, você ficou imaginando e aprimorando, em seus detalhes, desfechos diferentes, nos quais você, na hora da ofensa, teria imediatamente resgatado sua honra e punido o agressor, deixando-o tão inerte e silencioso quanto você mesmo ainda lamenta ter ficado. Em suma, o desejo frustrado de se vingar é uma poderosa matriz narrativa, sobretudo nos devaneios privados, em nosso cinema de bolso, que fica escondido por ele ser pouco conforme com os ditados da moral dominante.”

Dito isso, voltamos ao Dexter. Além de um bom roteiro (uma fórmula, mas das boas), Dexter é o desejo de vingança realizado. É aonde, o discurso não dito, ao menos, se torna uma ação.

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  • VRy intriguing to study it :P

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